A indefinição também nos é cara

16-05-2020

Temos de dar a cara, mesmo que ela não se nos defina. Não podemos fugir ao que nos parece torpe nem daquilo que de tão direito se nos aparenta que, resumido, apenas nos sublinha a rigidez. A cara ou a coroa, afinal de contas? Entre os loendros que intimidam algumas espécies e as figueiras que à sombra delas nos dizem para não adoecermos, o caminho é sinuoso e às vezes tão minimamente insinuante que não nos permite discernir nem eleger. Esperamos que os dias cálidos nos abram os poros da vontade em seguir e agradecemos à humidade que a noite faz reinar nesses mesmos dias inteiros. Sobranceiramente, não erguemos os olhos às estrelas nem à lua, tentando no meio da bruma descortinar a melhor abertura de lente para a fotografia fiel. Na retina não cabem as fotografias da memória, não as tirámos em sofreguidão suficiente que permitisse sobrevoar as místicas felinas dos telhados. Não existe a fotogenia perfeita que supere a nossa imaginação. Se fecharmos os olhos com muita força encontramos ainda mais bruma e muito menos descobertas. Ficámos num passado que queríamos que fosse o presente da altura e que nem num parco futuro se transformou. Como um ser elástico que tenta estar em todos os momentos e não está em lado nenhum. Mas a nossa cara lá persiste, a olhar-se ao espelho. E, ainda por cima, com uma perspectiva egocêntrica daquilo que não sabe se é cara ou coroa. Sabemos, sim, que nos sai caro procurar pelas duas faces da mesma moeda. E saímos ao desbarato a vender emoções, ilusões nuns abraços em vias de extinção porque o corpo esfumou-se na força e na razão. Já projectámos um futuro sem saber a que tempo pertence. E, disto tudo, ainda nada passou.

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© 2020 Susana Helena de Sousa
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