A vida de todos os dias [no beco]

10-04-2020

A vida corre todos os dias o seu curso normal. Sem conseguirmos adensar a magia das coisas belas, porque ficam, instintivamente, diluídas entre tanto daquilo que não pedimos e chega sem aviso. Parece que acontece a todos. Mas a cada um de maneira diferente, sendo que há uns que sentem que nessa diferença são mais iguais do que outros. Igualdade na ostracização. Igualdade nos dias interminavelmente difíceis. Igualdade num fatalismo carimbado prematuramente. Muitos de nós estamos num beco onde quem entra já não sai. A fome ferve e os sonhos congelam. Todos os dias igual. Entre espaços, muitos vão desistindo e outros não conseguem ter força para continuar além da esperança. Mas, todos os dias, ecoa o som da vida a acontecer para lá do beco. Os carros que percorrem a rua, a agitação dos dias, verdadeiramente, normais com as bocas saciadas, os cães que são mais esquivos na sua sede, mas que regressam sempre ao regaço seco, onde encontram o alento da humanidade; aquela que conhecem apesar do beco em que muito deles também se encontram. Ali há uma roupa por lavar no alguidar em que a água suja apodrece. Há um resto de pão duro para amolecer e dar às bocas que já não se sabem abrir. Há um desespero arqui-inimigo da fraqueza que não lhe permite chegar à saída. Este lugar tem uma fronteira sem rosto que todos reconhecem. 

Em cima do dorso do cão, o tal ser mais esquivo daquele lugar encostado ao fundo, lá foge uma criança; que encolhe a fraqueza e ganha força para a meio do caminho dizer ao o seu fiel amigo que regresse de volta sozinho. Ali, transposta a fronteira invisível, poderá haver um pouco mais de pão. Ali, transposta a boca do lobo, deverá haver um espaço maior para gritar sobre a fraqueza que se vive na vida de todos os dias. Ali, após o salto existe o caminho contrário a qualquer beco que, estando à vista de todos, repulsa só pelo olfacto. Passar a um metro de distância daquele lugar, maternidade de muitos que não pediram para nascer, já permite reconhecer uma paleta monocromática de cheiros intensos, moribundos, afastados de incensos inebriantes. Se derrubássemos aquele beco desterraríamos a vida dos nossos dias que transformam o subconsciente num submundo que continuamente ignoramos e desejamos que não suba degraus na nossa consciência.  

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© 2020 Susana Helena de Sousa
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