360.º da Rua da Essência
As persianas do quarto não cortavam em nenhum ângulo o meu olhar debruçado sobre o teu. Apenas a tua ausência da rua da frente anulava a minha respiração que voltava ofegante quando fazias o caminho inverso à despedida. Protagonizavas um caminho solto, fresco quando a noite se anunciava quente, ao mesmo tempo húmida, ao mesmo tempo arrepiante. A distância não me encaminhava cheiros, nem pulsar de coração, nem respiração apressada. Com a imaginação (e a criatividade possível) vinham os lábios, os sorrisos, o olhar debruçado sobre mim, a entrega dos abraços. Foi assim desde o início. Comecei eu num encontro rápido e solitário. Num processo místico que faria os nossos olhares cruzarem-se em momentos que, apesar de fortuitos, criaram uma agenda própria, vivendo uma rotina que beneficiava esse assalto aos sentidos. O que dizer-te com os lábios secos, mordidos em mim pela minha própria vontade?! ... E o que fazer-te sentir com os movimentos do meu corpo franzino, mas torneado...? Sem respostas, sucediam-se as perguntas, lançadas em flechas - imensas, ininterruptas - na esperança de te acertar em cheio. Conhecia bem os teus caminhos, aqueles que se aproximavam do meu, e que eu não ousava desviar para o desencontro. Queria o máximo da tua atenção, sublinhando na entoação do meu olhar desejos sabidos. Os meus poros inteiramente debruçados sobre a tua pele, criavam entre nós um corredor de desejo. Toda eu era gritos, discursos intermináveis, monólogos de culto, palco vazio. Tu estavas na plateia, entre o assento e o aplauso. Entre o prólogo e o epílogo.
Aos poucos a segurança dos teus dias ganharam novo fôlego. Cada vez chegavas mais cedo ao pôr-do-sol que se homogeneizava entre as quatro estações. Eras tu a grande iluminação do meu universo de desejo. Foram várias as vezes em que prometi não dormir para te admirar a noite inteira. As noites para mim eram cada vez mais curtas porque quando chegavas já adivinhava a hora em que descerias a rua de regresso ao teu lar. E era apenas nesse momento que eu, no meu quarto, arredava pé da minha janela que te mostrava de cor. Exausta de amar ao longe, sentia-me quente o suficiente para encarar o sonho como um lugar provável do nosso encontro. Virava costas às persianas que ficavam entreabertas, como desde o início. Elas foram sempre as mais fiéis, superaram os meus sonhos e todos os outros lugares da minha vida, distante da tua.
Vejo hoje que os meus 13 anos distanciavam-se da tua fase adulta. A adolescência era espaço privilegiado para o meu encantamento. O primeiro de muitos. A homenagem aos grandes filósofos que ganham pontos em escala rompante de credibilidade perante a avidez em descobrir a vida teorizada nas linhas de pensamentos ora lúcidos, ora translúcidos, chegando a ser ofuscantes e confusos.
Queria e não queria. Sabia e não sabia. Deslumbrava-me com o teu olhar intenso já colado ao meu e dele me desviava algumas horas por dia, quando a estrada aumentava entre nós. Era a primeira paixão mais ousada. Inconsequente, inimaginável e secreta para o meu núcleo ao redor. Suba-se o volume da rádio, oiçam-se as composições musicais mais assertivas. Viva-se a minha história de amor, paixão... ilusão. Era o outro lado da vida; sem matéria, mas repleta de materialização.
Construí-me um pouco mais ao viver-te. Senti-te com a intensidade do fogo e a minha, ainda, inocência era a brandura necessária. Como percebo agora que o amor dá-nos os degraus para subir ao mais alto de nós. Que nos permite atravessar entre ruas e vielas esquivas em razões e repletas de vidas.
Com o passar dos anos encontro-me, agora, com um corpo cada vez mais nu, despido de certezas e vontades invioláveis. Regresso à origem de um amor sem controlo nem data de validade. Sou essência em descoberta e em mim cabem todos os amores do mundo.
(Original publicado no Livro «Ruas» de João Miguel Pereira e Pedro Oliveira Tavares - 2017)
