Ivan Lins fazedor de música total
Ivan Lins, um dos maiores nomes da música brasileira nos últimos quase 50 anos, deu um concerto em Albufeira que eu jamais esquecerei. Apesar de saber quem era este ícone e trautear algumas das suas músicas, foi em Albufeira há cerca de 10 anos que o vi ao vivo pela primeira vez. Integrado no então programa «ALLGARVE», num espectáculo cheio de emoções, abraçou generosamente os fãs que puderam ouvir grandes sucessos como «Madalena», «Dandara» e «Começar de Novo». Ivan Lins apresentou também o seu «Íntimo» de 2010, mas ofereceu «Habanera», música do seu trabalho seguinte. Este compositor e produtor apresenta-se fora do palco com a simplicidade que o caracteriza. Comigo partilhou as suas expectativas, experiências e histórias de uma vida que conta com milhões de seguidores. Fazedor de uma «música total» - como gosta de designar - Ivan Lins tem estado sempre rodeado de jovens porque sabe que é preciso integrar as novas tendências, sobretudo tecnológicas. Eis um artista de "janelas e portas abertas" para o mundo!
«Íntimo» traz de volta o principal letrista de Ivan nos anos 70 e 80, Vitor Martins - que está presente em nove das 14 faixas do disco, entre clássicos e novas composições. A que resultado chegou com este trabalho de 2010?
Cheguei a um resultado que se constitui numa descoberta. Trata-se de um trabalho que nasceu de um projecto holandês, quando estava em digressão pela Europa. Partilhei minha equipa com equipa holandesa de músicos e produtores. Regravei algumas canções antigas a pedido deles. Não é um trabalho de carreira, mas de um projecto muito específico. Através do álbum, diferentes artistas do jazz e do pop se juntam para duetos comigo. Nesses encontros, cantam-se as letras originais em português, enquanto os convidados interpretam as versões. Tal como o nome indica, é um trabalho com uma linguagem íntima na parte literária, os arranjos são quase todos canções de amor, canções líricas. A receptividade tem sido muito boa, mas já estou com outro disco pronto para sair já em Agosto...
A minha próxima pergunta ía nesse sentido. O novo disco, de que nos deu um «cheirinho» no sábado, é também um trabalho que vive de novas descobertas?
Sim; um produtor jovem, também com muitos músicos jovens, sendo que muitos deles nuncam tinham gravado comigo. Vem com uma linguagem mais fresca, mais actualizada; dentro da sonoridade que hoje a música vai tendo. Isso porque eu também sou muito camaleónico; eu não me prendo a sonoridades nem estilos e isso vai dar para ver bastante no meu show; em que eu viajo desde a música íntima, do pop ao jazz com uma fluência bastante grande. Eu não me prendo a um género. Uma vez me perguntaram que tipo de música fazia eu falei que fazia «música total» (risos).
É assim que designa a sua música?
É, é assim... Eu não tenho qualquer problema em misturar música sertaneja com rock, com outros géneros e é o que eu vou fazendo. Tem canções que eu toco de uma maneira bastante concisa e limpa e tem outras que são longas que canto de uma maneira longa, com improvisos de jazz e tudo. Coloco tudo no mesmo pacote. De certa maneira é uma forma do meu público que tem acesso a música mais comercial aceder a performances de músicos e conhecerem o outro lado que se aproxima muito do jazz. Isso de uma certa maneira é bom para terem contacto com esse género de música.
Quando começou tinha alguma perspectiva? Ou seja, sabia que o seu percurso ía ser a «música total» ou acreditava que ía seguir apenas um género musical?
Quando eu comecei fazia música pop; a minha linguagem jazzistica já permanecia, mas eu usava com muita timidez; achava que era para outro Ivan...
Um Ivan mais maduro, mais experiente...
É, é... E depois fui juntando os Ivans todos num Ivan só. Isso é o amadurecimento; à medida que você vai amadurecendo você vai-se libertando de certas dúvidas, medos e vai-se colocando mais por inteiro. Hoje a minha música é totalmente inteira; sou eu de todas as maneiras e continuo compondo muito. Eu tenho uma produção como compositor muito grande e tenho me deixado contaminar, inclusive, pela música de todos os outros compositores; de grandes compositores brasileiros, portuguesea, de todos os lugares do mundo. Eu não faço barreiras... Tem até uma frase que está no release do meu próximo disco que diz: «Eu só existo porque eles existem».
Artista aberto para o mundo
Não é um artista fechado sobre si mesmo...
É, eu não fecho, eu abro! Eu deixo minhas portas e janelas totalmente abertas; eu deixo entrar tudo o que é bonito. Eu tenho um compromisso com a beleza! Sabe, essa beleza estética, e a beleza humana, claro. Tem um grande amigo meu, o Carlos do Carmo [fadista] que me passou uma frase do poeta português Manuel da Fonseca que diz: «As coisas belas só pertencem a quem as ama» e esse é um dos lemas da minha vida. Eu procuro produzir beleza porque eu me deixo contaminar por ela.
«Madalena» celebrizada por Elis Regina é o seu primeiro sucesso. As suas canções já foram interpretadas por grandes nomes brasileiros e internacionais. Quer destacar nomes especiais que estejam na sua lista?
Sim, claro que sim! O Sting, a Barbara Streisand, Sara Rowland, George Benson, Ella Fitzgerald,Diana Krall... Meu Deu há tanta gente!
Já percebi que ainda quer partilhar muita música. Quem está na sua lista de futuras uniões musicais?
Olha, Peter Gabriel, Jamie Cullum, porque também toca piano e é da nova geração, e eu sei que ele gosta e conhece a minha música... Os Coldplay que é das que mais gosto da nova safra de bandas de rock, Paul McCartney, Steve Wonder, James Taylor também...
O Ivan Lins é responsável por lançar grandes nomes da música brasileira, como por exemplo Lenine e Chico César. Sente-se, de alguma forma, uma plataforma para muitos artistas se descobrirem?
Sim... Faço questão de fazer isso. No Brasil tenho feito muito isso. Inclusive aberto o meu palco para a nova geração, para os novos compositores e artistas que têm aparecido. Meu palco sempre está aberto a eles. Talvez porque talvez eu nunca tenha tido na minha época esse tipo de generosidade. Acho que é importante você ajudar a renovar a música porque quando você ajuda a renovar você se renova também. Caetano [Caetano Veloso] tem feito isso muito também; e ele mesmo se renova com isso... É uma forma de longevidade.
Falou em «generosidade». Sente-se uma pessoa generosa?
Sim, essa é uma característica da minha vida; em tudo. Inclusivé ajudando com minha música outras áreas que não passam pela música, mas pela beneficiência. Por exemplo, agora minha música vai estar a ajudar a «Associação Nacional do Câncer». Eu vou separar uma parte dos lucros desse disco para doar para a fundação para que possam adquirir equipamentos mais modernos.
Considera que é importante um músico fazer isso?
Sim, claro que sim, na medida em que você tem status para fazer isso e pode atrair e convencer o público também. E também pode pressionar os governos para que eles melhorem a política de saúde e parem de botar tanto dinheiro no bolso.
«Que há-de ser de nós» é uma música que integra o trabalho «Coincidências», de 1983, de Sérgio Godinho, um dos maiores nomes da música portuguesa. Como foi essa experiência de compor música para Sérgio Godinho?
Foi maravilhosa e eu tenho planos para fazer mais trabalho com sérgio Godinho, mas também com Paulo de Carvalho e Luis Represas. Eu tenho um trânsito muito bom com os músicos portugueses, sobretudo os da minha geração e com os das décadas seguintes; de 70 e 80. Tenho muita vontade de compor com eles.
Podem, portanto, surgir novidades?
Pode sim (risos)
Tem guardado muitos amigos ao longo dos seus quarenta anos de carreira?
Tenho, tenho, graças a Deus. Amigos são para a gente guardar do lado esquerdo do peito. São fundamentais na vida de todo o mundo. Talvez a amizade seja mais importante que o próprio amor. Eu acho que o amor é que faz parte da amizade e não o contrário. A amizade é tudo na vida e eu gosto de fazer amigos; gosto de ter uma relação boa com as pessoas. Criar laços afectivos com as pessoas melhora o planeta.
Mas a verdade é que na vida artística a componente da competitividade é, muitas vezes, sobrevalorizada...
Mas como é que eu vou competir com quem me inspira?! Se eles me motivam a fazer música; porque produzem coisas tão lindas como é que eu vou competir com eles?! Eu não posso competir com eles: eu quero ser amigo deles, estar junto com eles (risos).
A adaptação às novas exigências do mercado
Mas já li também que houve uma fase em que se sentia desencantado com a apetência musical dos seus compatriotas e que o levou a interromper durante cinco anos a sua produção musical...
O mercado brasileiro é que estava muito ruim, não o público.
Mas alguma vez se sentiu desenquadrado artisticamente no seu país?
Não, nunca, porque sempre estive observando as novas gerações e, por incrível que pareça, eles é que me ensinaram a voltar a produzir. Eles é que vivem uma realidade muito mais dura, mas encaram-na de uma forma muito mais optimista. Eu tive muito mais facilidade em ascender na carreira do que eles e assim mesmo continuam a produzir maravilhas! Isso inclui o meu próprio filho, que também é músico e produtor. Para mim foi importante contactar com os mais jovens porque me deu um conhecimento muito forte das novas tendências do mercado e coragem para voltar e continuar.
E já está ultrapassado esse desencanto que chegou a sentir...
Já está ultrapassado. Agora a gente sabe que tem que fazer as coisas por outros caminhos e eu acho que hoje a contribuição da nova geração, inclusive na parte tecnológica é muito importante. Porque o mercado está caindo na mão da gente jovem e que já tem uma linguagem diferente de como conduzir a música. Você tem que estar muito aberto e não pode fechar suas portas e achar que está tudo ruim - como tem muita gente da minha geração que fechou as portas - são negativos e continuam em guerra com o mercado. Temos que seguir porque não tem como deter o progresso. Eu refutei muito até entrar na internet, por exemplo, mas agora está difícil me tirar de dentro dela (risos).
Isso é bem visível pelo seu site. Lá encontramos muito do seu trabalho discográfico disponível...
Exactamente.
Tem colhido frutos; mais fãs graças à Internet?
Tenho, tenho. Novas gerações inclusive que estão descobrindo o meu trabalho e isso é fantástico?
E podemos esperar novos trabalhos seus em novos formatos tecnológicos?!
Sim, sim. Eu tenho uma equipe jovem no Brasil que está a fazer todo um plano tecnológico e que vai junto das editoras que distribuem meus trabalhos trabalhar esses formatos em conjunto. É de facto uma equipe muito jovem; o mais velho deve ter uns 40 anos; e quando tem 40 anos já é chamado de velho porque tem cabelos brancos! (risos). Eu sempre gosto de andar com gente jovem porque eles me rejuvenescem e me mostram que a vida é longa e não tão curta quanto a gente pensa. Eu sou muito curioso pela vida; sempre fui chamado de cientista louco...
De químico a músico
É curioso saber que é engenheiro químico de formação, mas que se deixou atrair mais que tudo pela música. Como é que isso aconteceu na sua vida?
Eu achava que a química me ia levar a descobrir coisas, mas depois percebi que na Universidade eu não ia ter chance nenhuma para descobrir nada e que devia ter feito arquitectura que era a minha matéria mais forte. Optei por química porque muitos amigos foram e eu também. Mas o meu espírito aventureiro foi que determinou tudo na minha vida. Estou na música porque tenho um espírito aventureiro; corro riscos, quero sempre criar coisas novas que podem ser bem ou mal aceites. Eu tenho uma frase que fala assim: «O impossível é impossível» (risos). Porque eu acho que tudo tem uma saída! Apesar de todas estas crises eu sou muito positivista!
E conseguiu que seu pai, militar e com uma postura conservadora, aceitasse a sua vida de artista. Não foi fácil?
É, não foi fácil, mas acabou por aceitar, ele próprio foi-se tornando uma pessoa mais aberta ao longo da vida. Meu pai é uma pessoa extraordinária que me deu uma educação muito rígida ao nível dos valores éticos que são fundamentais. Para mim a transparência é o valor mais importante na vida.
E também arranjou saída para a fobia que tinha em subir no palco. Uma fobia que teve ao longo de seis anos... Muito tempo.
É verdade! Foi terrível para mim, mas depois eu superei isso incrivelmente, graças a Deus. Para você ver como a terapia é importante; se você acertar no terapeuta. Eu acertei, tive uma sorte!
A música é a sua maior expressão
Também fugia das mulheres, por ser uma pessoa tímida! É uma pessoa tímida!?
Sou, sou...
A música é a sua maior expressão?
É, a música é a minha maior expressão. Eu uso a música para tudo na minha vida. Ela é o meu sexto sentido.
E uma palavra para os fãs...
Os fans na verdade fazem o artista; se não tem público não tem continuidade. Eu devo muito também ao público por estar produzindo como estou produzindo. Apesar de todos os problemas que existem por aí, eu posso me considerar um artista privilegiado ainda por ter um público que gosta de mim e po quem quem tenho o maior respeito. Por isso sempre apresento minha música com todas as suas facetas, seus lados, suas indiocrassias e suas brincadeiras e detalhes...
(Entrevista publicada originalmente no Semanário «O Algarve» em Julho de 2011)
