À Janela

04-04-2020

De manhã aproximei-me da janela com a água micelar e o disco de algodão na mão. Estamos todos muito contidos agora. O sol acentuado insinuou-se e sem repentes, que o sol não precisa de pressas para viver, mas de um momento para o outro, assim mesmo, fez-me sentir a sensação do reabraço. O calor assoberbou-me em vários sentidos. A mim, que ali estava em modo de quarto minguante. A obsessão em fugir, que se apoderou de nós, coloca-nos sinais vermelhos muito mais eficientes que em qualquer avenida principal de uma cidade de tamanho grande.  Dei por mim a reagir tal qual num outro dia com «A Caverna», de Saramago, na parte em que li «gotículas»... Paralisei no momento exacto para não ser atingida por aquela palavra, ou por outra; por aquelas gotículas. Estará para ser classificada a nova perturbação mental decorrente desta pandemia. Tivemos de nos fechar em casa. Muitos de nós não estamos realmente isolados. Muitos de nós estamos; ao contrário dos primeiros. Mas todos estamos num mesmo barco; tão diferente daquele «Barco do Amor» onde os abraços, os beijos, os afectos eram a medicina ancestral aplicada e a cura para males que entorpeçam o nosso corpo. 

Sairmos porta fora fez cair a máscara de uma necessidade básica. Se o não fosse porque estaríamos tantos de nós com a vida em pausa? Pode não ser uma pausa literal, mas é visceral. Sai das nossas entranhas; a todo o custo. O sol que chega às nossas janelas é todo o calor humano acumulado na maior bateria natural do Universo. Essa bola de fogo é a maior luz. Aquela que concentra todas as nossas energias emanadas, muitas delas que ficaram por gastar e que agora estão a saldo à janela. Em muitas portas ganha um novo sentido o anúncio de «Liquidação Total». As casas vão ficar vazias, as luzes apagadas por noites seguidas. As televisões off, os telefones sem bateria, a roupa por lavar, as teias de aranha vingarão no seu auspiciado espaço. Vamos fugir de casa porque a nossa natureza vai cumprir o seu papel. A nossa carne e os nossos ossos decorarão mais do que nunca o nosso espírito de luz que  descerá as tais avenidas das maiores cidades do mundo e preencherá as artérias entupidas, agora, de profunda solidão.  

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© 2020 Susana Helena de Sousa
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