Lá atrás na infância
11-11-2019
Depois da fase de adaptação as águas acalmam-se, conseguimos boiar na maresia. Calmamente, de olhos fechados, sentimos o cheiro do mar salgado que nos massaja suavemente de uma forma perfeita e que só a natureza consegue proporcionar.
O som de Vinicius de Moraes é tão perfeito quanto a mão da natureza. A sua voz, a sua composicão musical, a poesia... «Deixa, deixa, deixa (...) fale quem quiser falar meu bem/deixa o coração falar também/porque ele tem razão demais quando se queixa».
A criança que fala dentro de mim permite-me viver euforias. Frágil, sensível, inocente e de olhos esbugalhados que exibe sempre a vontade de viver absolutamente. Acredita que é imbatível, linda, forte e vitoriosa.Renasce a cada viagem ao passado num futuro onde vive a sua segunda vida, a sua segunda oportunidade amparada por mãos muito firmes que manejam marionetas e constroem espetáculos encantadores.
Os dias de chuva não aconteceram enquanto eu fui criança. Não me consigo lembrar deles. Dos dias de Inverno o que me recordo é do sr. Alberto que nos arranjava as telhas para que a chuva - de que, apesar de tudo, não me lembro! - não entrasse em casa. Nunca vi uma pinga dentro, mas nos dias invernosos o alguidar, que era azul, estava lá no meio do corredor. Mais ou menos na mesma altura do ano lá aparecia o sr. Alberto. Mãos grandes, calejadas - dos calos e da cal - que nos afagavam com uma festa no cabelo; e o sorriso de criança correspondia àquele gesto. Era um homem alto, usava uma camisa de flanela, com quadrados azuis e vermelhos, e uma boina. Não teria mais de 40 e poucos anos. Falava à moda do norte. Pronunciava palavras redondas de alegria. Arranjava o telhado e ia embora. Os mais pequenos não faziam nem as honras da casa nem as despedidas, mas nos seus corações o calendário prosseguia, fazendo correr os dias até um próximo regresso. Separava-nos as estações do ano. Ele era o nosso sol de Inverno.
